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21 de outubro de 2003 - 14h12


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Terça-feira, 21 de outubro de 2003

O CORPO COMO INSTRUMENTO MUSICAL
Grupo Barbatuques, que tira som de palmas, pés e movimentos de língua e peitoral, conquista a cidade
Marcos Mendes/AE
Alguns dos integrantes do grupo Barbatuques em ação: eles fazem um movimento artístico espontâneo e consistente e promovem um resgate lúdico das tradições brasileiras
LUCINÉIA NUNES

Eles são um contraponto à tecnologia. Os Barbatuques usam o corpo como único instrumento e resgatam o que há de mais puro em nossas raízes, os sons primais, o tribal e o folclore. Mais que isso. "É um movimento artístico espontâneo e consistente", afirma Stênio Mendes, um estudioso da música orgânica e colaborador do grupo. Fundado em 1996, por Fernando Barboza, o "Barba" - cujo apelido e o hábito de batucar no corpo batizaram o grupo -, o Barbatuques é hoje um sucesso que se alastra por São Paulo, em shows, eventos, festas escolares e até no teatro infantil. Palmas, batidas no peito, efeitos de voz, sapateado - tudo isso faz o show. E o resultado é uma festa percussiva de ritmos e melodias, quase uma brincadeira de criança, em que todos brincam, tocam e improvisam sobre o mesmo instrumento: o corpo.

Barba descobriu, ainda na adolescência, que seu corpo era um brinquedo sonoro. "Costumava andar na rua criando melodias e cadenciando os passos no ritmo. Aos poucos, surgiam novos batuques e variações que contagiavam os amigos", conta. Formado em música pela Unicamp, ele se dedicou às pesquisas sobre a percussão corporal. "Nosso trabalho não é como o do grupo Stomp ou de músicos como Tom Zé, Lenine, Naná Vasconcelos e Gilberto Gil, que usam o som corporal apenas como um adendo", afirma Barba, que faz um resgate lúdico das tradições brasileiras por meio da releitura de diferentes sons, como coco, jongo, samba, baião, afoxé e maracatu.

Em 1993, ele fundou com os amigos Marcos Azambuja e André Hosoi, um dos integrantes do Barbatuques, hoje composto por 12 músicos, o Auê Núcleo de Ensino Musical, que realiza oficinas de percussão corporal. "Em 1998, começamos a ousar mais e demos início aos nossos shows", recorda Barba. Desde então, foram apresentações em diferentes palcos da cidade e uma delas marcou a história do grupo, o realizado em 2001, durante a entrega do Prêmio Itaú Unicef, no Credicard Hall, no qual dividiram o palco com 200 crianças de diferentes ONGs de São Paulo. Na mesma época, ganharam uma diretora cênica, Deise Alves, também responsável por preparação corporal. "Passamos a pesquisar mais as danças brasileiras e as linguagens cênicas."

No início do ano, o grupo foi selecionado para participar da 37.ª edição do Midem - Mercado Internacional de Edição Musical, em Cannes, na França, que teve o Brasil como país-tema. Para o músico Tom Zé, mestre-de-cerimônia da noite de música brasileira do festival, foi estimulante vê-los no palco. "Eles trabalham com garra e propósito. O fundamental não é bem que eles 'percutam' o corpo, não. Tanto faz 'percutir' corpo como lata, como bateria.

O resultado é que é importante, e eles conseguem um resultado muito animador. É afetivamente cálido ver esses músicos, essa insólita mistura de pessoas que, no Brasil, só acontece em São Paulo. Disse a eles na França e repito agora: banda brasileira perfeita tem de ter um oriental. No fundo dessa brincadeira, há uma razão de ser que não radiografo bem; mas creio nela", diz Tom Zé. "Sabe quando você acha interessante o que um grupo artístico faz e, além disso, gostaria de encontrá-los por acaso, atualizar os cadernos de endereços? Os Barbatuques me inspiram esse sentimento."

Quem já teve a oportunidade de assistir a um show do grupo ou encontrou com algum deles por aí, em oficinas ou apresentações teatrais, certamente foi contagiado pela energia que cerca os Barbatuques. No palco, além de toda sonoridade - que pode causar até um estranhamento de início -, há o contexto cênico, imagens projetadas e uma divertida intervenção com a platéia. Além dos shows, os barbatuques André Hosoi, Bruno Buarque, André Venegas, Dani Zulu, Flávia Maia, Giba Alves, João Simão, Lu Horta, Mairah Rocha, Maurício Maas, Renato Epstein e Fernando Barboza realizam oficinas em escolas, empresas e inspiram o trabalho de grupos de teatro e dança.

É o caso, por exemplo, do musical infantil Marias do Brasil, de Rodrigo Castilho e Marília Toledo, que ganhou músicas de Chico César e direção cênica de Fernando Barboza. "Sou um admirador da percussão corporal que tem sua raiz no trabalho de Stênio Mendes, de quem também fui aluno", afirma Chico César. "É um trabalho de libertação, de retorno ao básico, que é ter o corpo como primeiro instrumento. Há alguns anos, escuto falar nos Barbatuques, mas somente agora tive o prazer de trabalhar com eles. É um grupo de multiplicadores." No ano passado, o Barbatuques lançou seu primeiro CD, Corpo do Som, com músicas próprias e algumas releituras. E, assim que obtiver patrocínio, pretende lançar um DVD. A direção deve ficar por conta de André Abujamra, que participou recentemente de um show do grupo no Sesc Pompéia. "O que fazem é uma brincadeira séria. Gosto de shows em que as pessoas saem felizes. Eu já gostava deles, mas no ensaio senti uma energia ótima dessa garotada persistente", diz Abujamra.

No dia 5, o grupo apresenta-se no Teatro Municipal de Santo André; no dia 15, eles participam da Semana Nacional da Prevenção de Perda Auditiva, no Sesc Santo Amaro; e no dia 30 fazem show na Sala São Paulo.

Manuel de Brito/AE
"É um trabalho de libertação, de retorno ao básico, que é ter o corpo como primeiro instrumento. É um grupo de multiplicadores"
(Chico César)
Edson Kumosaka/Divulgação
"Tanto faz se o corpo é usado como lata. O mais importante é o resultado disso, e eles garantem animação"
(Tom Zé)
Divulgação
"Gosto de shows em que as pessoas saem felizes. Sinto uma energia ótima nessa garotada persistente"
(André Abujamra)

 
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